terça-feira, 11 de junho de 2013

Todos os anos, diversos vestibulares pelo Brasil acrescentam em sua lista de livros obrigatórios a obra-prima de Graciliano Ramos, Vidas Secas, que retrata a vida de retirantes nordestinos tentando sobreviver a condição de fome e morte à qual estão submetidos e que impera no sertão. Se você é do tipo que detesta "desgraça" vai sofrer um bocado ao ler o romance já que, segundo especialistas, nunca as dificuldades e o sofrimento dos retirantes nordestinos foi contada com tanta precisão e realidade. ? bem verdade que, em determinados momentos, é possível mergulhar no livro e viver os dramas dos protagonistas. Sofrimento à parte, a obra tem um ponto muito interessante porque, pela primeira vez, relaciona a seca e suas consequências para o povo muito mais à falta de interesse político da nação do que apenas a um triste fenômeno da natureza, regra, até então, utilizada pela grande maioria dos autores que tinham o sertão como pano de fundo de suas histórias.Segundo o professor de Jornalismo Cultural da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), também diretor do programa Entrelinhas da TV Cultura e especialista na obra de Graciliano Ramos, Ivan Marques, esta é a primeira dica que os vestibulandos devem levar em conta no momento em que leem Vidas Secas. Embora outros autores como Raquel de Queiroz, em seu livro o Quinze - que também retrata a seca do Nordeste - tenham se preocupado em falar sobre a condição de vida no sertão, seus textos são muito mais poéticos e menos críticos à política brasileira como responsável sobre a fome e a miséria que se instala no local, do que o romance de Graciliano Ramos. "O discurso de Graciliano está muito mais ligado à política, o de Raquel não", diz. Este é um dos motivos pelo qual muitos vestibulares pedem os dois livros na lista obrigatória. ? uma chance de mostrar aos estudantes como um autor e outro trabalham as relações sobre uma mesma temática.Dica importante: o livro Vidas Secas foi escrito na década de 30, quando a temática sobre o sertão começava a desabrochar na literatura de Raquel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e outros escritores de peso. Nesta época, a literatura brasileira se esparramava pelas diversas regiões do país e muitos escritores, de norte a sul do Brasil, estavam engajados com nossos problemas sociais. Com isso, ela deixa de ter apenas um caráter reflexivo, para assumir uma postura crítica em relação à sociedade. Vidas Secas é um marco deste conjunto.Vale destacar a propriedade com a qual escritores como Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto descrevem as pessoas e os costumes do sertão nordestino. São pessoas que viveram essa realidade e, como tal, sabem o que é particular deste ambiente. "Daí a literatura regional do Nordeste ter ganho destaque ao longo dos anos", complementa o professor de Comunicação Social da UNIFOR (Universidade de Fortaleza), Ruy Vasconcelos.Outro ponto interessante a ser observado em Vidas Secas é a concepção dura, simples, quase ríspida, que o autor dá às personagens. Para entender melhor esta característica é preciso conhecer um pouco mais sobre a figura do escritor. Afinal, quem era Graciliano Ramos? De um pessimismo inigualável e uma rigidez intrínseca, quase que até sua aura, Graciliano não tinha poesia, não fazia poesia. "Sua literatura representa sua essência como ser humano. Daí, o fato dos livros terem sempre um viés pessimista", explica Marques. O professor ressalta, porém, que de todas as obras do autor, incluindo São Bernardo e Angústia, publicadas anteriormente, o romance Vidas Secas é o que está mais isento de tal característica. Nele, Graciliano explora questões como solidariedade e afeto como saídas para amenizar a dor e o sofrimento das personagens. "São inserções de sentimentos que não se vê em suas obras anteriores", explica o professor.Vasconcelos afirma que essa linguagem minimalista utilizada por Graciliano também é predominante em sua descrição do ambiente e de suas personagens. "As vestes, as falas e o espaço onde estão inseridos são descritos com quase nenhum detalhe que prenda a atenção do leitor. O mais interessante é reservado para seus pensamentos, sempre evocados pela narrativa de Graciliano."Justamente por ser narrado em terceira pessoa, o livro permite que o narrador se interiorize nos pensamentos dos personagens para revelá-los ao leitor. Assim, o texto fica estruturado no discurso indireto livre (predominante), em que o narrador se apropria do discurso das personagens para expô-los, evidenciando seus medos, desejos, raivas e frustrações através de monólogos interiores. O foco narrativo ganha destaque ao converter em palavras os anseios e pensamentos das personagens. Essa concepção narrativa fica mais evidente ao passo que as personagens do livro quase não têm fala. Graciliano trabalha o não falar de tais personagens como o máximo do subjulgamento de um ser humano, ou seja, a privação da fala. "Essa é outra característica que aponta uma crítica social de sua obra, a tamanha opressão sobre os retirantes que lhes tira, inclusive, o direito de falar," explica.Vale lembrar que Graciliano Ramos foi perseguido e preso durante o Estado Novo. Quando saiu da prisão, não tinha mais nada. Ele vivia em casas de pensão no Rio de Janeiro e escrevia contos para os jornais para ganhar dinheiro. Um destes contos foi o da cachorra Baleia. Com o passar do tempo, ele passou a escrever outros contos que, integrados ao de Baleia, deram origem ao livro Vidas Secas. "? importante destacar que o autor faz essa junção tão bem que, embora você perceba que seus capítulos têm final bem demarcados, ao mesmo tempo, eles estão conectados como se tivessem sido escritos de uma única vez. Graciliano faz isso com mestria", ressalta Marques.Do livro ao filme Sinhá Vitória, Fabiano, o menino mais velho e o menino mais novo são exemplos de figuras humanas representadas na obra literária de Graciliano Ramos que têm quase a mesma ou tampouca vida quanto a cachorra Baleia - dotada de uma solidariedade desinteressada que não se vê nas personagens humanas. Essas características são tão marcantes no livro que não se esperava que a versão cinematográfica pudesse exprimi-las com precisão. Nas mãos do cineasta Nélson Pereira dos Santos, porém, a história da família de retirantes nordestinos foi reproduzida com tanta maestria que, até hoje, é considerada por especialistas como uma das melhores adaptações de roteiro literário para o cinema brasileiro.O filme, rodado em 1963, chegou aos cinemas junto com a obra-prima Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha. Logo de início, trazia uma mensagem para o público de que não se tratava de uma ficção, mas de uma realidade que, todos os anos, era vivida por milhares de nordestinos em busca de uma vida melhor fora do sertão. Por isso, junto à obra de Glauber Rocha, também conquistou espaço como filme de crítica social na época do Cinema Novo.O professor Vasconcelos lembra a cena em que os retirantes nordestinos estão chegando uma casa de fazenda como uma das mais interessantes do filme. O registro demorado dos retirantes até sua chegada na fazenda, para ele, representa um marco diferente do que estamos acostumados a ver na tela, pois transmite muito bem o ritmo lento do livro Vidas Secas. "Essa chegada não é representada por um corte frenético tão peculiar à TV e ao cinema. O cineasta acertou ao captar e transferir para a versão cinematográfica a lentidão peculiar a esta obra de Graciliano", diz.Na opinião de Marques, o filme é, sim, um complemento à obra e pode ajudar os estudantes a ter uma visão mais ampla sobre o romance de Graciliano Ramos, além de dar a chance de conhecer um trabalho cinematográfico de muita qualidade. "Nélson Pereira dos Santos merece todos os destaques pelo trabalho que fez. Existem milhares de adaptações que pouco ou nada têm a dizer sobre as obras literárias em que foram baseadas. Vidas Secas é, realmente, uma exceção", diz.Entre as cenas do filme, o professor destaca também a que retrata a morte da cachorra Baleia. Quem leu, sabe que o desejo do animal era ver o sertão cheio de preás. Para ilustrar esse pensamento do livro, o cineasta utiliza uma câmera subjetiva focalizando Baleia em agonia e intercalando planos em que preás começam a se espalhar sobre a paisagem seca. "? uma transição de um recurso literário para o cinema. Algo realmente fantástico", afirma. Vale destacar que o filme "Vidas secas" obteve os prêmios "Catholique International du Cinema" e "Ciudad de Valladolid" (Espanha).Encontrar o filme Vidas Secas não é das tarefas mais fáceis. Fora de catálogo há algum tempo, ele já foi lançado em DVD. Suas cópias, porém, estão mais disponíveis à venda do que para locação. A vídeo-locadora 2001 - de São Paulo, por exemplo, possui o DVD em seu catálogo eletrônico, mas não têm unidades disponíveis nas lojas. O jeito é ligar e reservar ou sair em busca da obra-prima de Nelson Pereira dos Santos no circuito alternativo de cinema.



Graciliano Ramos nasceu no dia 27 de outubro de 1892, na cidade de Quebrangulo, sertão de Alagoas, filho primogênito dos dezesseis que teriam seus pais, Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ferro Ramos. Viveu sua infância nas cidades de Viçosa, Palmeira dos Öndios (AL) e Buíque (PE), sob o regime das secas e das surras que lhe eram aplicadas por seu pai, o que o fez alimentar, desde cedo, a ideia de que todas as relações humanas são regidas pela violência. Em seu livro autobiográfico "Infância", assim se referia a seus pais: "Um homem sério, de testa larga (...), dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza (...), olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura".
Ainda pequeno, em Buíque, o escritor tem contato com as primeiras letras. Em 1904, retorna ao Estado de Alagoas, indo morar em Viçosa. Lá, Graciliano cria um jornalzinho dedicado às crianças, o "Dilúculo". Posteriormente, redige o jornal "Echo Viçosense", que tinha entre seus redatores seu mentor intelectual, Mário Venâncio. Em 1909, passa a colaborar com o "Jornal de Alagoas", de Maceió.
O ano de 1933 marca o lançamento de seu primeiro livro, "Catés", que já trazia consigo o pessimismo que marcou sua obra. Esse romance Graciliano vinha escrevendo desde 1925. No ano seguinte, publica "São Bernardo". Em março de 1936, acusado de ter conspirado no levante comunista de novembro de 1935, é demitido, preso em Maceió e enviado a Recife, onde é embarcado com destino ao Rio de Janeiro no navio "Manaus". com outros 115 presos. O país estava sob a ditadura de Vargas e do coronel Filinto Müller. Quando libertado, em 1937, Graciliano passou a trabalhar como copidesque em jornais do Rio de Janeiro. Em 1945, ele filiou-se ao Partido Comunista. Em abril de 1952, descobre um câncer no pulmão. No janeiro ano seguinte, 1953, é internado na Casa de Saúde e Maternidade S. Vitor, onde vem a falecer, vítima pelo câncer, no dia 20 de março, às 5:35 horas de uma sexta-feira. ? publicado o livro "Memórias do cárcere", que Graciliano não chegou a concluir, tendo ficado sem o capítulo final.


Catés - romance
São Bernardo - romance
Angústia - romance
Vidas secas - romance
Infância - memórias
Dois dedos - contos
Insônia - contos
Memórias do cárcere - memórias


quarta-feira, 5 de junho de 2013


Ensaio fotográfico de Evandro Teixeira, o mais importante fotojornalista do país.Durante dez dias, Evandro percorreu o sertão de Alagoas e Pernambuco, trilhando os caminhos de Graciliano e registrando os lugares em que nasceram os personagens criados pelo escritor alagoano. A seguir, algumas fotos do ensaio de Evandro Teixeira.







Pessoal, estou gostando muito dos comentários. Continuem participando.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Queridos alunos, respondam às seguintes questões (em uma folha para entregar dia 07/06/2013):


 Leia o seguinte trecho do capítulo “Contas”, de Vidas Secas.

Tinha a obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia do seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. (...) Era a sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar
mandacaru, ensebar látegos – aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias.
(Graciliano Ramos, Vidas Secas. 103ª. ed., Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p.97.)

a) Que visão Fabiano tem de sua própria condição? Justifique.

b) Explique a referência que ele faz aos “homens ricos” com base no enredo do livro.
Assistam ao vídeo


Biografia de Graciliano Ramos:


Graciliano Ramos (1892-1953) foi escritor brasileiro. O romance "Vidas Secas" foi sua obra de maior destaque. É considerado o melhor ficcionista do modernismo e o prosador mais importante da segunda fase do Modernismo. Suas obras embora tratem de problemas sociais do Nordeste brasileiro, apresentam uma visão crítica das relações humanas, que as tornam de interesse universal. Seus livros foram traduzidos para vários países. Seus trabalhos "Vidas Secas", "São Bernardo" e "Memórias do Cárcere", foram levados para o cinema. Recebeu o Prêmio da Fundação William Faulkner, dos Estados Unidos, pela obra "Vidas Secas".
Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu na cidade de Quebrângulo, Alagoas, no dia 27 de outubro de 1892. Era o primogênito de quinze filhos, de uma família de classe média do sertão nordestino. Passou parte de sua infância na cidade de Buíque, em Pernambuco, e parte em Viçosa, Alagoas. Fez seus estudos secundários em Maceió. Não cursou nenhuma faculdade.
Em 1910 foi com a família, morar em Palmeira dos Índios, Maceió, onde seu pai abriu um pequeno comércio. Em 1914 foi para o Rio de Janeiro trabalhar como revisor dos jornais Correio da Manhã e A Tarde. Voltou para a cidade de Palmeira dos Índios onde trabalhou com o pai, no comércio. Em 1927 foi eleito prefeito da cidade, assumindo o cargo em 1928. Mudou-se para Maceió, em 1930, onde assumiu a direção da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado.
Graciliano Ramos estreou na literatura em 1933 com o romance "Caetés". Nessa época mantinha contato com José Lins do Rego, Raquel de Queiros e Jorge Amado. Em 1934 publicou o romance "São Bernardo" e em 1936 publicou "Angustia". Nesse mesmo ano, ainda no cargo de Diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado, foi preso sob acusação de participar do movimento de esquerda. Após sofrer humilhações e percorrer vários presídios, foi libertado em janeiro de 1937. Essas experiências pessoais e dolorosas de sua vida, foram retratadas no livro "Memórias do Cárcere", publicado após sua morte. O romance "Vidas secas", escrito em 1938 é a sua obra mais importante.
Graciliano Ramos seguiu para o Rio de Janeiro, onde fixou residência e foi trabalhar como Inspetor Federal de Ensino. Em 1945 ingressou no partido comunista brasileiro. Em 1951 foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores. Em 1952 viajou para os países socialistas do Leste Europeu, experiência descrita na obra "Viagem", publicada em 1954, após sua morte.
Graciliano Ramos morreu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953.
Obras de Graciliano Ramos
Caetés, romance, 1933
São Bernardo, romance, 1934
Angústia, romance, 1936
Vidas Secas, romance, 1938
A Terra dos Meninos Pelados, literatura juvenil, 1942
História de Alexandre, literatura juvenil, 1944
Dois Dedos, literatura infantil, 1945
Infância, memórias, 1945
Histórias Incompletas, literatura infantil, 1946
Insônia, contos, 1947
Memórias do Cárcere, memórias, 1953
Viagem, memórias, 1954
Linhas Tortas, crônicas, 1962
Viventes das Alagoas, costumes do Nordeste, 1962

domingo, 2 de junho de 2013

"Vidas secas" - Análise da obra de Graciliano Ramos

"Vidas Secas", romance publicado em 1938, retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca. A obra pertence à segunda fase modernista, conhecida como regionalista, e é qualificada como uma das mais bem-sucedidas criações da época.

O estilo seco de Graciliano Ramos, que se expressa principalmente por meio do uso econômico dos adjetivos, parece transmitir a aridez do ambiente e seus efeitos sobre as pessoas que ali estão.

- Leia o resumo de Vidas Secas

A estética da seca
"Vidas Secas" é um dos maiores expoentes da segunda fase modernista, a do regionalismo. O diferencial desse livro para os demais da época é o apuro técnico do autor. Graciliano Ramos, ao explorar a temática regionalista, utiliza vários expedientes formais – discurso indireto livre, narrativa não-linear, nomes dos personagens – que confirmam literariamente a denúncia das mazelas sociais.

O livro consegue desde o título mostrar a desumanização que a seca promove nos personagens, cuja expressão verbal é tão estéril quanto o solo castigado da região. A miséria causada pela seca, como elemento natural, soma-se à miséria imposta pela influência social, representada pela exploração dos ricos proprietários da região.

Os retirantes, como o próprio nome indica, estão alijados da possibilidade de continuar a viver no espaço que ocupavam. São, portanto, obrigados a retirar-se para outros lugares. Uma das implicações dessa vida nômade dos sertanejos é a fragmentação temporal e espacial.

Graciliano Ramos conseguiu captar essa fragmentação na estrutura de Vidas Secas ao utilizar um método de composição que rompia com a linearidade temporal, costumeira nos romances do século XIX.

A proposital falta de linearidade, ou seja, de capítulos que se ligam temporalmente, por relações de causa e de consequência, dá aos 13 capítulos de Vidas Secas uma autonomia que permite, até mesmo, a leitura de cada um de forma independente.

Narrador
A escolha do foco narrativo em terceira pessoa é emblemática, uma vez que esse é o único livro em que Graciliano Ramos utilizou tal recurso. Trata-se, na verdade, de uma necessidade da narrativa, para que fosse mantida a verossimilhança da obra. Por causa da paupérrima articulação verbal dos personagens, reflexo das adversidades naturais e sociais que os afligem, nenhum parece capacitado a assumir o posto de narrador.

O autor utilizou também o discurso indireto livre, forma híbrida em que as falas dos personagens se mesclam ao discurso do narrador em terceira pessoa. Essa foi a solução para que a voz dos marginalizados pudesse participar da narração sem que tivessem de arcar com a responsabilidade de conduzir de forma integral a narrativa.

Espaço
A narrativa é ambientada no sertão, região marcada pelas chuvas escassas e irregulares. Essa falta de chuva – somada a uma política de descaso do governo com os investimentos sociais – transforma a paisagem em ambiente inóspito e hostil.

Inverno, na região, é o nome dado à época de chuvas, em que a esperança sertaneja floresce. O sonho de uma existência menos árida e miserável esboça-se no horizonte e dura até as chuvas cessarem e a seca retornar implacável. No romance, essa esperança aparece no capítulo “Inverno”, em que Fabiano alimenta a expectativa de uma vida melhor, mais digna.

O retorno à visão marcada pela falta de perspectivas recomeça com o fim das chuvas, com o fim da esperança. Na obra, pode-se apontar, também, para dois recortes espaciais: o ambiente rural e o urbano. A relevância desse recorte se deve às sensações de adequação ou inadequação dos personagens em um ou outro espaço.

Fabiano consegue, apesar da miséria presente, dominar o ambiente rural. Incapaz de se comunicar, o personagem, desempenhando a solitária função de vaqueiro, não sente tanto as consequências de seu laconismo. Além disso, conhece as técnicas de sua profissão, o que lhe dá uma sensação de utilidade e permite que goze até de certa dignidade. A passagem em que seu filho o admira ao vê-lo trabalhando deixa claro isso. Na cidade, porém, Fabiano vivencia, a cada nova experiência, o sentimento de inadequação. Os capítulos “Festa” e “Cadeia” ilustram bem essa sensação.

Tempo
Além da falta de linearidade do tempo, em "Vidas Secas" há nítida valorização do tempo psicológico, em detrimento do cronológico. Essa opção do narrador de ocultar os marcadores temporais tem como principal consequência o distanciamento dos personagens da ordenação civilizada do tempo.

Dessa forma, nota-se que a ausência de uma marcação cronológica temporal serve, enquanto elemento estrutural, como mais uma forma de evidenciar a exclusão dos personagens. Por outro lado, a valorização do tempo psicológico na narrativa faz com que as angústias dos personagens fiquem mais próximas do leitor, que as percebe com muito mais intensidade.

"Vidas Secas" é um romance cíclico. São 13 capítulos independentes que contam a retirada de uma família. Inicia-se com uma mudança e termina com a fuga.

A família é composta pelo pai – Fabiano – que quase não fala, não sabe que é branco e não sabe ler nem escrever. Sinhá Vitória, mulata esperta que sabia fazer contas com os grãos, Menino mais velho que queria saber ler e queria o significado da palavra Inferno. Menino mais novo, queria ser um vaqueiro como o pai. Cadela Baleia, a mais humana das personagens e um papagaio que não falava, só latia porque era o único som que escutava.


 O vestibular pode cobrar a hierarquia apresentada no livro: como por exemplo, o que representa o Soldado Amarelo e a linguagem do Tomás da bolandeira, a quem Fabiano tanto admirava. Além disso, pode ser perguntado sobre o grau de miserabilidade dessa família: a cadela chegando ao nível humano e o humano descendo à condição de animal. Esta família vaga pela caatinga tentando chegar em algum lugar, mas podem estar perdidos, andando em círculo.

Resenha de Vidas secas

Vidas Secas Graciliano Ramos No livro Vidas Secas de Graciliano Ramos conta a história de uma família de retirantes, que estão fugindo da seca do sertão nordestino. Fabiano o pai, Sinhá Vitória a mãe, os dois filhos do casal, filho mais novo e filho mais velho assim chamados, a cachorra baleia que é tratada como gente e um papagaio que foi morto para matar a fome da família. Essa família por sua vez sempre sofreu, passando fome, tristeza e muita necessidade. Podemos comparar essa família de retirantes com as famílias brasileiras de hoje que vivem no sertão nordestino e de forma miserável sofrendo com a seca, e muitas dessas famílias vão em busca de vida nova em outras regiões. Onde algumas conseguem trabalho e dar o necessário para a sobrevivência de sua família. Mas muitas não conseguem trabalho e assim vivem mendigando pelas ruas. Após terem caminhado muito, todos estavam muito famintos e cansados e também estavam todos magros, com ossos saltados, rachaduras nos pés, e com vários ferimentos causados pela viagem cansativa e pela seca. Resolveram parar em baixo de um juazeiro para descansar, baleia a cachorra avistou um preá que serviu para matar a fome de toda família. Chegam a uma fazenda abandonada e ali ficam. Fabiano e sua família se apossaram da casa, pois não tinham onde ficar. Com o tempo a chuva chegou e também um ar de vida nova. A pareceu também o dono na fazenda que expulsa os retirantes de lá, Fabiano sente uma grande tristeza e implora para o fazendeiro para trabalhar na fazenda, o fazendeiro aceita. Agora Fabiano é um vaqueiro. Mesmo sendo um vaqueiro, tendo casa para morar, Fabiano não estava satisfeito com sua vida, pois aquela não era sua casa, não estava trabalhando em sua terra e assim como nada é seu, como só tem a posse e não a propriedade dos meios de produção, Fabiano não se sente pertencente ao lugar onde está. Tem a consciência de que logo, logo, outro entraria em seu lugar. Certa ocasião Fabiano vai ate a cidade para compras, mas acaba jogando baralho com um soldado amarelo que o convida. O jogo acontece, Fabiano perde e sai da bodega que deixa o soldado amarelo falando sozinho, o que o deixa muito furioso. Então o soldado começa irritar Fabiano. Fabiano perde a paciência e fala mal da mãe do soldado que o leva para cadeia. Fabiano se sente muito pequeno e sem valor, pois nunca tivera conseguido dar para sua família o necessário para viver, também tinha muita raiva do soldado por cometer injustiças com pessoas inocentes como ele. Solto Fabiano continua levando sua vida na fazenda. Esse fato nos mostra como a sociedade é injusta, como as pessoas um ‘pouco mais espertas’ recriminam o pobre, o cidadão sem estudo. Pensam que são maiores, poderosos e se aproveitam da situação, e fazem com que a pessoa se sinta mais inútil e miserável do que a própria realidade a torna. Mas essas pessoas se esquecem que estão falando com gente, e não com bichos como as tratam. O dono da fazenda aparecia poucas vezes na fazenda, mas era sempre para reclamar ou para cobrar contas. Fabiano sabia que seu patrão o roubava então mandou Sinhá Vitória fazer as contas, mas sempre as contas de Sinhá Vitória eram bem diferentes das do Patrão. Mas Fabiano ficava quieto, pois tinha medo que o patrão o mandava embora e assim as dividas se aumentavam. Fabiano admirava seu Tomás da Bolandeira, homem inteligente que falava bem, lia jornais e livros, e votava e queria entender como ele para que não fosse roubado e injustiçado por ser ‘burro’ e pobre. É Natal a família toda vai para cidade, vão à missa e depois vão festejar na praça. Sinhá Vitória andava aos tombos porque não conseguia andar muito bem com salto alto. Os meninos ficam com medo, pois nunca tinha visto tantas luzes, gente e casas. Fabiano percebendo as pessoas que estavam a sua volta se sentia inferior e começou a beber e começa a fazer provocações, mas logo deita no chão da praça e dorme. Sinhá Vitória fica muito atenta com os filhos que estão muito nervosos, pois não acham mais a cachorra baleia, mas logo ela aparece e todos voltam para fazenda. Baleia a cachorra estava muito, doente Fabiano com medo que baleia passe a doença para seus filhos resolve sacrifica-la. Fabiano com muita pena da um tiro na cachorra que a fera, mas só vem a morrer a noite quando sonhava com uma vida melhor. Certa vez Fabiano estava voltando da cidade quando se deparou com o soldado amarelo que o prendeu, Fabiano logo pensou em se vingar e matar o soldado. Mas Fabiano sentiu-se muito mal e sábia que ele não era capaz de matar e ensinou o caminho de volta para o soldado que estava perdido. Como se não bastasse, a seca atinge a fazenda e faz com que toda família se desanime, mas eles decidem fugir novamente, só que dessa vez para o sul, em busca da cidade grande. Partiram sem rumo, mas com a esperança de uma vida nova sem depender de secas para sobreviver, e também com a perspectiva que os meninos pudessem estudar e serem como Tomás da Bolandeira um homem inteligente e bem dotado. Por mais difícil à situação econômica, o difícil acesso intelectual, a maneira de viver rústica, a maneira de ser tratado, a convivência perto de pessoas fluentes, inteligentes, que falam corretamente, fazem com que essas pessoas veem o quanto o estudo é importante para vida, muda muito a pessoa, seu jeito de ser e ver o mundo, seu jeito de falar. E isso a família de Fabiano tinha esperança de dar para seus filhos, já que nem Sinhá Vitória, nem Fabiano tiveram. Pois a vida em sociedade produziu apenas desgastes, lesões físicas e emocionais na vida de toda família, mas agora Sinhá Vitória e Fabiano querem mudar essa realidade de seus filhos. RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 110º ed. Rio de Janeiro: Recorde, 2009.174p.
Retirantes, Cândido Portinari